Mateus Nachtergaele diz que seu filme é uma tentativa desesperada de superar os lutos
15/08/2008
O diretor e o elenco de “A Festa da Menina Morta” concederam entrevista coletiva agora há pouco. Mateus Nachtergaele disse a idéia de fazer um filme nasceu em 1999, quando filmava O Auto da Compadecida em Cabaceiras, na Paraíba. “Estava acontecendo uma festa religiosa num sábado à noite. Na parede da casa tinha um quadro de uma criança com um vestido rasgado. Ela tinha desaparecido e nunca foi encontrada. Só acharam num espinheiro pedaços do vestido dela, uns trapinhos. Aquilo foi considerado milagre e todos os anos as pessoas rezam para ela. Aquilo me perturbou”, revela.

Para o ator e agora cineasta, o filme é um retrato íntimo dos envolvidos na tentativa desesperada de superar os lutos. Ele diz que a cena de incesto entre pai e filho provocou polêmica quando o longa foi exibido no Festival de Cannes, na França. “O filma passa naturalmente por isso, sem condenar ninguém. Eles estão juntos por causa da ausência da mãe. Ele continua casado com a mulher, só que no corpo do filho. Na casa, sem a mãe, tudo pode acontecer, inclusive, o surgimento de uma seita”, explica.

Mateus conta que na hora de criar a seita ele quis representar todos os movimentos religiosos presentes na comunidade, desde a Igreja Católica, passando pelo Espiritismo, as Benzedeiras, a Igreja Universal, até chegar aos índios. Para ele, foi uma tentativa de homenagem ao povo brasileiro.

A atriz Cássia Kiss, que interpreta a personagem da mãe que comete suicídio, conta que foi o melhor set em que trabalhou nos últimos anos. “Poucas vezes tive uma experiência tão rica. Era tanto sentimento presente, eu jamais tinha visto aquilo”, diz. Paulo José também faz uma participação no filme. O ator, que visitou as gravações sem compromisso, acabou ganhando um papel improvisado. “Eu interpreto um padre que diante daquela seita perde o sentido, por isso ele fica bêbado e louco”, explica.

Quando indagado sobre a experiência como diretor, Mateus Nachtergaele é incisivo ao afirmar que está muito mais exposto atrás das câmeras do que se estivesse atuando. “Eu não sabia que fazer um filme pudesse mover tantas energias desconhecidas em mim, que pudesse envolver tantas estâncias de mim”, diz.

“Festa da Menina Morta”, orçado em 2,4 milhões de reais, será exibido hoje, às 21 horas, no Palácio dos Festivais.


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