Debate de filmes discute a importância do cinema autoral
15/08/2008
A penúltima rodada de debates aconteceu esta manhã no Centro de Eventos da UFRGS com a discussão dos filmes “Um Ridículo em Amsterdã”, “Homens”, “Booker Pittman” e “Areia”. Os realizadores discutiram com o público e jornalistas a linguagem apresentada pelas obras. Enquanto muitas películas de 90 minutos ficam presas ao cinema clássico através da narrativa, os curtas podem trabalhar outras linguagens e edições. Para eles, o objetivo principal é provocar sensações nos expectadores.

Em “Areia”, o diretor Caetano Gotardo, diz que isso se dá através do espaço onde o filme acontece. “Ninguém sabe se a personagem está lá ou se está relembrando um momento”, diz Caetano. O mesmo acontece em “Um Ridículo em Amsterdã”, que discute a invasão de privacidade. “Optamos por misturar a realidade com a ficção. Eu observei o real e construí um roteiro de ficção”, conta o diretor Diego Gozze.

O diretor de Booker Pittman diz que seu curta também provoca confusão nos expectadores. “Booker é um personagem real, é a história do jazzista Booker Pittman, mas em determinado momento ele pode se tornar irreal porque se mistura com o mito”, avalia Rodrigo Grota.

No curta “Homens”, os diretores explicam que priorizaram os depoimentos longos em vez de falas curtas e cruzadas. Bertrand Lira e Lucia Caus quiseram mostrar o sofrimento dos travestis, mas, sobretudo a alegria do dia-a-dia deles. “O filme foi construído em cima dos personagens que fomos encontrando durante a viagem por diversas cidades do nordeste. Utilizamos poucos recursos de luz. O filme está na lei de incentivo para ser transformado em longa”, dizem.

O debate encerrou com a discussão sobre o filme “Juventude”, de Domingos Oliveira. A película, exibida ontem à noite, foi aplaudida em pé no final da projeção. Para o diretor, a reação do público foi surpreendente. “No festival, as pessoas são muito críticas, por isso levei 20 segundos até ficar morto de felicidade”, brinca.

A atuação de Paulo José foi elogiada pelos jornalistas e cinéfilos. Ele conta que a preparação para o papel exigiu tanto quanto de outros personagens. “Estou sempre começando, é a ‘juventude’. Eu trabalho muito, passo a vivenciar o personagem dia e noite. Para mim é um processo mental. Não preciso ficar num hospício internado se vou interpretar um louco. O cinema é uma vivência, eu não entendo os atores que não misturam sua vida pessoal à do personagem. Eu misturo. A minha cama (durante as gravações de Juventude) era a mesma cama do personagem”, diz.

O filme, que mostra a reunião de três amigos 50 anos depois, precisou ser improvisado por causa do orçamento de 800 mil reais. O diretor conta, por exemplo, que reescreveu o roteiro devido a um temporal que pegou a equipe de surpresa. Domingos Oliveira diz também que as novas tecnologias aproximam o cinema da arte e que, quanto mais barato for o custo da produção, mais autoral ele se torna. “O cinema no Brasil só pode crescer quando atingir uma fatia do mercado externo. Aqui dentro não tem chance. Acho também que o cinema autoral é o que vai projetar o cinema brasileiro para outros países. Um filme que surpreenda pela sua arte. Mas a legislação do Brasil não considera o cinema uma arte”, lamenta.

Amanhã, às 11:30, acontece a última rodada de debates no Auditório Locatelli, no Centro de Eventos da UFRGS.


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